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  • Writer's pictureMaria ISAAC

A paixão pela escrita e o tortuoso sonho literário

Vamos começar? Esta é a época dos inícios, das listas, das intenções, resoluções, e pelo que percebi, a escrita também está nos planos de muita gente.

Romances, mistérios, diários… o que não te falta é ideias e imagino que algumas dúvidas.

Mas as dúvidas também fazem parte das coisas boas e escrever é, definitivamente, uma ótima ideia!

Se estás a pensar em começar um diário, peço que partilhes comigo tudo o que sabes porque há anos que tento disciplinar-me a manter um e ainda continuo a tentar. Se há um livro de ficção no teu horizonte, nesse caso, tenho uma palavra a dizer sobre o assunto.


Hoje vou percorrer os solavancos da minha jornada literária com o top 3 das tormentas: legitimidade, originalidade e expressão.

Gostava de ter uma fórmula mágica pronta para oferecer - uma que dissipasse todas as hesitações - mas mesmo sem fórmulas mágicas, vou partilhar contigo algumas das descobertas destes solavancos que.. espero... venham a ser uma ajuda para tornar o teu caminho um bocadinho mais fácil.


“O homem é um ser ficcionante.” Disse Eduardo Lourenço, o grande pensador português. “A nossa relação com o real é uma relação imaginária.”

É aqui que tudo começa: Todos nós somos levados desde cedo por este impulso natural de imaginar. A partir do que nos rodeia, interpretamos, criamos histórias… e vamo-nos perdendo nelas até… não importa a idade.

A certa altura, pode surgir em alguns de nós a vontade de partilhar estas histórias que imaginamos... e escolhemos a escrita como a arte para o fazer.

Uma das minhas memórias mais antigas é a de estar sentada em frente a um vaso, a alisar a terra com os dedos e a falar com as flores.


Se leste Onde Cantam os Grilos, talvez percebas logo que esta minha primeira memória, as flores, se embrenhou no livro. Como esta, há muitas outras memórias moldadas a ficção… faz parte da escrita.

Mas de, uma simples memória de infância até a um livro, vão mundos de distância cheios de dúvidas.

Poderia resumir assim o meu top 3, nos solavancos desta jornada literária: Legitimidade: quem, ou o quê, nos dá o direito de escrever? Originalidade: é um ideal a ser alcançado? Ou um mito? Expressão: como é usar palavras para tornar uma página em branco num mundo para partilhar.

Este trio foi o meu cabo das tormentas. Ah, e a cereja no topo do bolo das conversas de circunstância: escritores, já há muitos!

Ora, não é de surpreender que me tenha feito questionar a minha legitimidade assim que pensei em juntar duas palavras com significado… também conhecido como Síndrome do impostor.


Síndrome do impostor: sensação de inferioridade ilusória; subestimar as próprias capacidades; crença de que os outros são mais capazes. A descrição é-te familiar? Pode até não ser uma doença, mas estas dúvidas transformam-se facilmente em pensamentos com poder para incapacitar qualquer um de nós de fazer o que deseja, especialmente coisas novas… como por exemplo, escrever.


Afinal, quem, ou o quê, dá legitimidade a alguém para se tornar um escritor?

Comecei por pensar que era a idade, que era necessário alcançar um tempo de vida mínimo para ter o direito a ser levada a sério - aqui deixo a ressalva de que a minha adolescência não foi bafejada com a boa fortuna da internet, que democratizou plataformas de expressão. No meu tempo… bem, não vamos falar nisso…

Depois da idade, pensei que pudesse ser o conhecimento, a especialização, estudos académicos, cultura geral; depois, o círculo social, depois… outras coisas… até que por fim, o óbvio: o que legitima um escritor é o próprio ato de escrever.

E, importante aqui referir, não confundir legitimidade com reconhecimento, que foi o que fiz na minha pergunta mal formulada.

Ser escritor é uma coisa, ser reconhecido como tal, é outra bem diferente.

Portanto, aqui as notícias não podem ser melhores, nem mais simples: se queres escrever, escreve, não precisas de autorização, benção ou aprovação.


A respeito da originalidade: Se considerarmos uma história passada numa herdade, com uma criança que foi abandonada, uma família com segredos, os seus empregados; original não é o adjetivo que usaríamos, certo? Claro. Pois então, replico aqui a dúvida existencial de tempos distantes: Maria Isaac porque escreves tu tal coisa?

Esta pergunta fez-me parar de escrever tantas vezes. e não foi só com Onde Cantam os Grilos, foi durante demasiado tempo, com quase tudo o que ia escrevendo. Até perceber, mais uma vez, que era a pergunta errada, este foco em ser original.

Perceber isto, foi perceber que aquilo em que eu devia trabalhar e perseguir não era originalidade, era autenticidade.

Não acredito que a originalidade esteja nas minhas mãos; ela existe com o leitor, na interpretação que ele faz ao ler; a originalidade é uma colaboração entre um escritor, e um leitor.


Vejo o que escrevo como se fosse um mapa para uma viagem, e quando alguém lê, e segue as direções que sugeri, essa pessoa vai - tal como um viajante - dar atenção a certas coisas em detrimento de outras, vai ver com os seus próprios olhos, recriar a partir do que sugeri, e eu adoro este companheirismo que acontece entre quem escreve e quem lê, porque é aí que se cria a originalidade, que torna cada livro, único.

A minha grande preocupação são as palavras que formam este mapa cheio de direções e ditam o seu rumo.


O que nos leva ao último dos desafios no top 3 das tormentas: Expressão, a dificuldade de pôr em palavras o turbilhão de coisas que nos vai pela cabeça.

Tenho um exemplo pessoal muito concreto do que quero dizer: Considero o Onde Cantam os Grilos um dos melhores livros que escrevi, e ele foi o meu primeiro livro… não o mesmo livro que leste, o que está nas livrarias, porque esse é o resultado de eu ter voltado a ele, ao primeiro livro, vários anos depois, e o ter reescrito por completo… no entanto, ele é, no seu essencial, aquilo que eu queria escrever, numa época em que ainda não sabia como o fazer.

Há escrita de qualidade - que pode ser aprendida com a ajuda de cursos e workshops - e talento para a usar de maneira criativa. Talento, esse que se desenvolve, com muitas, muitas horas de leitura e escrita… e como qualquer outra arte, se pratica até à mestria.


Moral da história: escreve, mesmo que ainda não consigas que seja tudo o que queres que seja. Guarda na gaveta, regressa a ele mais tarde, tantas vezes quantas achares necessárias até te parecer perfeito.

E outra coisa, nem todos os livros são para ser partilhados, alguns nunca devem sair da gaveta e não há qualquer problema nisso - são escritos simplesmente pelo bem de futuros livros; livros melhores.


Se a escrita é uma luta, guarda estas palavras de Faulkner: “É a ocupação mais gratificante que o Homem já descobriu, porque nunca o conseguimos fazer exatamente como pretendemos fazer, e por isso há sempre uma razão para acordar na manhã seguinte e continuar.”


Escrever tem sido uma das atividades mais recompensadoras a que me tenho dedicado e por isso todas estas tormentas foram boas conquistas.

Encontrar as palavras certas, colocar em ordem memórias e pensamentos por natureza rebeldes, incoerentes, descrever experiências, emoções, poder partilhar tudo isto é uma sensação libertadora.


Escrever um livro é como a gastronomia: resultado da escolha criteriosa de ingredientes na exuberância da natureza humana, que depois de transformados com muita dedicação, permitem saborear uma amostra de vida.

Escrever ficção é aprender a estar confortável a representar dois pontos de vista contrários com a mesma paixão, com o privilégio de não ter de escolher nenhum deles.

As barreiras entre nós já são demasiadas. Porque andamos stressados. Porque nos sentimos ansiosos. Porque somos neuróticos. Precisamos de muitos escritores, muitos leitores, muitos livros. Observa, presta atenção ao mundo, parte de ideias comuns, torna-as em algo novo, coloca-as no papel. Escreve, partilha e convida-nos numa viagem.

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