top of page
  • Writer's pictureMaria ISAAC

Que estranho, este nosso hábito de ler.

No que toca a coisas estranhas, quão estranho é, este nosso hábito de ler…? E como somos recompensados, por toda a dedicação e tempo, que disponibilizamos aos nossos livros?

Explicá-lo, especialmente a alguém que não lê, pode ser complicado, porque o que retiramos das nossas leituras depende, de tantas coisas!

Hoje, vou falar aqui: sobre algumas delas; sobre dois livros que tenho andado a ler e, dar palco e voz a um dos meus clássicos favoritos.


Bem-vindo, a mais um episódio!


Num episódio passado, falei sobre este nosso isolamento recente, que mudou tanta coisa, incluindo a forma como selecionamos o que ler e como o lemos.

Escolhem-se livros por diversas razões, para diversos propósitos: desde uma fuga ao que é doloroso, para encontrar refúgio num lugar melhor e mais feliz, até ao oposto, para mergulhar de cabeça nos problemas e tentar compreendê-los e desembrulhá-los de dentro. Pelo meio, muitos outros critérios são possíveis.

Quanto a mim, por norma estou mais inclinada para este último dos extremos: escolher livros de temáticas, que me são próximas no momento, com abordagens que tragam perspectivas sobre o que alimenta sonhos lúcidos e divagações existenciais.

Por estes dias, andei a ler dois livros que recomendo vivamente desde já: O Lobo das Estepes de Hermann Hesse, um clássico, e A Cidade Solitária de Olivia Laing.


O Lobo das Estepes é um dos livros mais populares de Hermann Hesse, a par com Siddhartha, e retrata um homem de meia-idade, respeitável e culto, que se sente espiritualmente metade-homem, metade lobo. Numa escrita intemporal, característica de muitos dos autores galardoados com o Nobel, Hermann Hesse ilustra o isolamento, que nasce de se sentir incompreendido e incapaz de comunicar com os outros. Harry Aller, o protagonista, o lobo das estepes, inicia a narração no tom melancólico que caracteriza todo o livro: “O dia tinha passado como normalmente passam os dias: eu o tinha-o desperdiçado, dissipado suavemente, com a minha maneira de ser primitiva e arredia…”


Já A Cidade Solitária é um livro autobiográfico, que resultou de um período de solidão na vida de Olivia Laing - quando a autora se mudou para Nova Iorque - e contém reflexões sobre a descoberta que ela foi fazendo da cidade, invocando ao longo do livro histórias de muitas figuras públicas do mundo da arte, que também viveram esta mesma cidade em outros tempos. Entre eles - tenho de referir: Edward Hopper - um dos meus pintores favoritos.

Escreve Olivia Laing no primeiro capítulo: "A cidade revela-se como um conjunto de células, milhares de janelas, algumas escurecidas, outras inundadas de luz verde, branca, ou dourada. Lá dentro, desconhecidos deslizam num vai e vem dos seus afazeres em momentos de privacidade. Conseguimos vê-los, mas não conseguimos alcançá-los, e assim, este fenómeno urbano comum, disponível em qualquer cidade do mundo, em qualquer noite, desperta até nos mais sociáveis um tremor de solidão, uma combinação incomoda de separação e exposição. Podemos estar solitários em qualquer lugar, mas viver na cidade, rodeado por milhões de pessoas, confere-lhe um sabor particular."


Infelizmente não há ainda edição nacional, d’A Cidade Solitária, mas é possível obter versão brasileira. Vou deixar o link para o site da wook no blog.

Estes são dois livros que gostei muito de ler recentemente, no entanto quando penso no que respeita a melancolia e solidão, o nome de referência - para mim - continua a ser Bernardo Soares, o ajudante de guarda-livros da cidade de Lisboa, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, que como o próprio referiu em carta a Adolfo Casais Monteiro: “É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha.” Hoje não resisto a partilhar um excerto do seu Livro do Desassossego… lá para o final do episódio, se quiseres ficar para ouvir.


Sendo esta a primeira vez que partilho as minhas leituras recentes, aproveito para deixar aqui uma salvaguarda: sou leitor lento. Gosto de me demorar no que leio. Não hesito a fechar livros com os quais não me identifico. E só dedico tempo, àqueles de que realmente gosto.

Nem sempre foi assim, talvez, o ter começado a escrever, teve alguma coisa que ver com este abrandamento. E, assumo com algum pesar, ter aceitado a realidade de que, ao escolher os livros que lemos, estamos a escolher também os que não vamos ler. Escolhas tem de ser feitas, e se assim tem de ser, que sejam o mais acertadas possíveis, não concordas?

Comecei a ler com regularidade apenas na adolescência, e gosto de o referir porque há tantas pessoas que justificam a ausência de hábitos de leitura regulares com o passado, a infância e educação, como se fosse pré-requisito para leitor, ter crescido no seio de uma família de leitores, rodeado de livros. Que é um estímulo, sem dúvida, mas não essencial.

Se tivesse de escolher essenciais, nesta arte de entusiasmar leitores, escolheria antes: um amigo leitor e uma biblioteca nos arredores lá de casa. Porque foi isto que mais me faltou, o primeiro, o amigo leitor, porque a biblioteca, essa estava lá. É maravilhoso poder ter alguém que nos oriente na floresta de possibilidades que é uma biblioteca, cheia de livros, uma ajuda nesta aventura sem fim de descoberta de novas histórias e novas escritores, para além de companhia para aquelas conversas literárias tão boas.

E depois a prática. Porque ler não é natural ao ser humano, lembras-te? Gutemberg veio revolucionar a nossa vida há escassas centenas de anos, enquanto que nós, seres humanos, o nosso cérebro, vem evoluindo há tantos milhões. Papel, tinta e letras são uma inovação recente para a nossa anatomia anciã. A leitura requer prática, e após a sua mestria até à banalidade, esquecemos facilmente o quão poderosas são estas armas que herdamos: a palavra e o livro, este objeto fascinante que, se me estás a ouvir neste momento, estou certa que partilhamos do mesmo encanto por ele, que também tens imensos em tua casa, que ocupam os lugares mais privilegiados, tal como ocupam na minha, e que te fazes acompanhar por eles sempre que podes.

Se for mencionar alguns escritores favoritos, poderia escolher vários títulos Paul Auster, Gabriel Garcia Marquez, Thoreau, John Fante, Eça, Camilo… e convém mencionar alguns contemporâneos como Mário de Carvalho, Joel Neto, Afonso Cruz… entre muitos outros. Selecionar nomes, sem dúvida que revela algo sobre mim, porque se os escolho é porque me identifico com os seus mundos… mas isso é verdade, apenas hoje, neste momento, em que estou a aqui gravar. A resposta há dez anos atrás seria bem diferente, porque eu era outra pessoa, porque ainda não tinha sequer conhecido alguns destes escritores. E sabê-lo, pressupõe que daqui a dez anos, ou já amanhã até, haverão novos nomes a mencionar, outros continuarão a ser mencionados para sempre… nesta longa descoberta que é a jornada de leitor.


E o que nos torna leitores? Creio que o mesmo que nos torna bons seres humanos: curiosidade pelo que nos rodeia, bondade de espírito, respeito e empatia pelo outro, tolerância para com as suas faltas e erros, e um idealismo, na vontade de ser melhor a cada dia.

São tantas as coisas que desejamos compreender e sentir, que com um livro nas mãos conseguimos ultrapassar a simples realidade de letras impressas em papel - quando deixamos de as ver e o ato de ler se transforma numa meditação, simultaneamente solitária e acompanhada, capaz de nos levar às lágrimas quando de súbito encontramos a nossa alma gémea num escritor que morreu no século XVIII.


Que estranho, é este ato de ler, não acham? Alguém, que segura nas mãos um livro, objeto composto por folhas de papel preenchidas por letras em combinações imensas, ao qual decide dedicar horas de vida a interpretar, indo ao encontro das ideias propostas por um desconhecido, um escritor, que ele provavelmente nunca conhecerá, mas com quem partilha - ali no estranho ato de ler, um mundo interior imenso. Tão incrível que parece impossível, a existência, à distância e em solidão, de tal intimidade entre duas pessoas. Não é de admirar que seja tão complicado de explicar a quem não o compreende.

Que estranho, e que maravilhoso, é este nosso hábito de ler.

Como começou a tua história de amor com os livros? Quais os critérios que usas para os escolher? Conta-me, eu gostava de saber.

Comments


bottom of page