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Os sabores do tempo

  • Writer: Maria ISAAC
    Maria ISAAC
  • Jan 4
  • 5 min read

Há palavras e histórias que só nascem no silêncio, disse um homem sábio.

Estes últimos meses foram um tempo assim, de espaço para silêncios e muitas memórias, essencialmente marcados por grandes perdas. 

Perdi pessoas que me eram próximas. Algumas despedidas já vinham sendo anunciadas, mas outras foram um susto e senti-o como a derradeira traição, uma daquelas enormes injustiças do destino.


E, de um modo diferente, perdi também escritores que muito admirava e que me acompanharam com as suas histórias, com personagens que nunca esquecerei.


Neste episódio que encerra um ano e inicia um novo, quero falar de despedidas, finitude, folhas caídas e daqueles inícios tranquilos que sempre nos aguardam ao virar da esquina. 


Bem-vindo a um novo episódio!



********


“What a difference a day makes” como diz a canção maravilhosa de Dinah Washington.“Que diferença faz um dia” Sinto que falar de 2025 já é olhar para trás no tempo.


Não foi um ano prolífico aqui para o Podcast no que respeita a novos episódios, os meu plano era outro, mas também não foi de completa ausência. Foi, como se costuma dizer: a vida a fazer das suas.


Tal como acontece a toda a gente, e infelizmente neste 2025 também a mim, perdi pessoas que me eram próximas. E, quando estes momentos acontecem e somos atropelados por estas tragédias (que sabemos inevitáveis mas para as quais nunca estamos verdadeiramente preparados) logo a seguir ao susto, ficamos de coração partido e cheios de luto e memórias que não sabemos bem o que fazer com eles.


Eu sempre acreditei que uma das melhores ajudas no que toca a lidar com a dor é encontrar uma forma de lhe dar um sentido. Aliás acho que falei alguma coisa em torno desta ideia quando falei aqui no podcast sobre a publicação do “As Historias Que Nos Matam”.


Para escritores, é bastante óbvia a forma como o fazer: Escrevendo.

Se formos fazer uma lista das grandes histórias na literatura, dos grandes livros que nasceram de uma perda… há títulos de sobra para pôr nesta lista.


Vêm de imediato à memória por exemplo o Paula da Isabel Allende, que ela escreveu após a morte da sua filha. “O Ano do Pensamento Mágico” da Joan Didion, escrito após a morte do seu marido, e mais recentemente, um exemplo nacional, “Misericórdia” de Lídia Jorge. Menciono apenas estes três para servir aqui a minha causa, porque tal como disse, esta seria uma lista com certeza muito, muito longa.


Nisto eu não sou diferente de qualquer outro escritor, que é como quem diz, qualquer outra pessoa que tem uma paixão e se refugia no que mais gosta para lidar com momentos difíceis e, no caso da escrita, é um conforto ainda maior quando o primeiro impulso, depois de se perder alguém, é o de preservar todas as memórias.

Acho que a nostalgia é um dos primeiros reflexos deste tipo de dor. Nostalgia de passado, olhar para trás, arrependimentos pelo que se fez, o que não se fez, o que se fez de maneira errada, o que já não há tempo para fazer.


E nostalgia de um futuro que nunca vai acontecer.


Já se sabe como estas coisas são. E ainda assim, sabê-lo, não vale de grande coisa.


Sophia de Mello Breyner escreveu:

“Lembro casas que desapareceram da minha vida... quero que a memória delas não vá à deriva” 


As pessoas: são elas a nossa casa.

Quando desaparecem, levam tantos bocadinhos de nós com elas.

Acho que estas palavras da Sophia de Mello Breyner se tornam especialmente relevantes quando perdemos aquelas pessoas que sempre estiveram na nossa vida, costumo chamar-lhes os grandes protagonistas da infância. Aquelas pessoas que são como alicerces de identidade, que têm o poder de nos relembrar de versões de nós mesmos tão distantes no tempo que até já tínhamos esquecido que existiram.


***


É do conhecimento comum que as pessoas que amamos estão em nós, e no que diz respeito a nós, os que lembramos e inventamos e escrevemos, essas pessoas estão também nas nossas histórias.


A minha “Odisseia das Pequenas Coisas” a triologia composta pelos meus primeiros três

Livros e da qual já falei em diversos episódios anteriores, é o exemplo perfeito disso.

O ambiente rural desses livros foi inspirado no meu cenário de infância e algumas das personagens ganharam a sua personalidade com pequenos detalhes de pessoas que me rodearam, que tornaram o meu “pequeno mundo” de criança numa pequena vila, em algo infinitamente maior.


Foi por isto que escolhi estes versos de Alberto Caeiro para a abertura do O Que dizer das Flores:


«Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura...»


O Guardador de Rebanhos. Fernando Pessoa.


***


Em mais uma daquelas coisas estranhas e características da literatura às quais até dediquei um episódio inteiro aqui no podcast, logo dos primeiros, episódio 4 “Que estranho, este nosso hábito de ler”.

Pois este nosso maravilhoso hábito de ler, também nos torna empáticos ao ponto de sofrermos pela perda de perfeitos desconhecidos, de pessoas com as quais nunca nos cruzamos, nunca tivemos oportunidade de falar ou trocar sequer um cumprimento.

Acho que se poderia chamar-lhe luto literário, quando morre um escritor favorito.


A primeira vez que o senti foi quando soube que Carlos Ruiz Zafón, autor de “A Sombra do Vento", tinha falecido. Voltei a senti-lo com Joan Didion e Paul Auster.

E neste ano de 2025, com muita tristeza, senti-o ao saber que tínhamos perdido Mario Vargas Llosa e Álvaro Laborinho Lúcio.


Cruzei-me com a seguinte frase:

“Escrever é um ato de esperança. É acreditar que alguém, algures, nos vai ler com o coração aberto.”

Não consegui identificar o autor, mas pareceu-me simples e perfeita, porque de facto quando lemos abrimos o coração de uma maneira mais desprotegida, e talvez seja por isso que estes nossos autores favoritos conseguem chegar até nós de uma forma tão pessoal e tão intimista


***


E tudo isto resume um bocadinho do que foram estes meses para mim, foram de facto tempos de muitas coisas boas e muitas coisas más, de longas horas para ruminar nelas. E um bocadinho de reclusão, um bocadinho mais de silêncio.


Como diz o velho ditado: Existem dois tipos de pessoas e neste momento são aquelas para quem 1 de janeiro é um marco, um momento de recomeços e inícios; e aquelas para quem 31 de dezembro e 1 de janeiro são apenas mais um dia a seguir a outro.


Seja para ti qual for, deixo aqui o meu desejo de que seja um tempo que te permita ter o necessário para sentires, compreenderes e recomeçares.


Parar, também é um gesto de cuidado.


***


O tempo é a coisa mais ilusória.


Dias que parecem durar uma vida.

Uma vida inteira que termina num instante.

Álvaro Laborinho Lúcio escreveu: “O tempo é o intervalo entre o que acontece e o que compreendemos.”

E assim é. 

Ele estica quando esperamos, encolhe quando amamos, desaparece quando sofremos.

Pensamos que o temos, a esse tempo tão ilusório, que o controlamos, que o poupamos, que o gastamos… até que certo dia percebemos finalmente que nunca nos pertenceu.

Cada perda ensina-nos a escolher. A escolher sobretudo o que merece este tempo tão precioso que parece ser nosso e afinal não é.


Um novo ano. Recomeçamos.

Saramago disse: “Morre-se de não ter dito a palavra, morre-se de não o ter feito. É disso que se morre.”

A acreditar no mestre Nobel da literatura: faço o caminho de volto à Palavra.



 
 
 

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