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  • Writer's pictureMaria ISAAC

De onde vêm as histórias?

O que é um escritor, senão um contador de histórias?

Alguém que olha o mundo à sua volta, o interpreta, o imagina para depois o partilhar.

O que é a vida, senão uma história?

Uma história que vivemos, que vamos contando a nós próprios e nos define, a cada um de nós, aos nossos olhos, aos olhos dos outros.

Nascemos, e a história começa. Morremos e a história acaba… ou talvez não.

De onde vêm as histórias? De nós? Dos outros?

Seja de onde for, histórias há muitas, e por isso hoje falo-te da magia nelas.

Bem-vindo a mais um episódio!


Era uma vez...

Todos nós somos facilmente encantados por estas três palavras.

Em crianças, elas começaram por nos ajudar a criar laços com as vozes que as contavam, pais, irmão, avós, professores… e se parares agora mesmo, só por alguns segundos, e te lembrares de uma das tuas histórias favoritas, tenho a certeza de que ainda a ouves contada pela voz de quem a partilhou contigo.

Queres experimentar? Coloca-me em pausa por alguns segundos de silêncio.

Os contos infantis ajudaram-nos a fazer sentido da realidade, a ter um vislumbre de compreensão sobre temas e assuntos que em certa altura ainda eram demasiado complexos para a nossa compreensão, alguns deles continuam a sê-lo.

Crescemos e, ainda nesta vida de adultos, mantemos na memória essas histórias infantis, que tantas vezes servem de alicerce para construirmos a nossa própria história, a nossa narrativa de vida.

Quem sou eu entre tantos? Qual o meu papel?

Se dou uma esmola a quem me pede, sou generoso? E se nesse mesmo dia cometo um erro, um ato de egoísmo, continuo a sê-lo?

Seja qual for a interpretação que decidamos seguir, as histórias fazem parte do nosso imaginário e da vida de cada um de nós.

Se os contos infantis nos ajudam a construir alicerces, ao longo da vida, as histórias nos livros que lemos vão continuando a ter esse mesmo papel, o de expor a complexidade do que somos, através de personagens que amamos, ou amamos odiar, e nesse faz de conta, a vida vai fazendo um pouquinho mais de sentido.

Quem éramos antes, quem somos agora. Nós mudamos e as histórias mudam connosco.

E assim se torna tão fácil perceber porque lemos de forma diferente ao longo da vida. Porque motivo aos 15 anos adorava ler a coleção “Uma Aventura…” ou a “Arrepios”, porque me viciei na série “Crepúsculo” no final da adolescência e depois nos romances históricos da Philippa Gregory, mais tarde já nos meus vintes, devorei John Fante e Bukowski e Henry Miller, até a uma paixão por Paul Auster que começou aos meus 30 e com grandes autores de língua portuguesa como Mia Couto e Jorge Amado de quem já falei aqui e muitos outros cuja admiração talvez nunca terá fim.

Num episódio anterior aqui do podcast intitulado “Há um livro para isso!”, se te recordas, falei sobre a biblioterapia, um género de terapia que assenta na crença de que os livros podem confortar-nos, atenuar sofrimento e trazer-nos até alegria.

A prescrição de livros é feita por um terapeuta (biblioterapeuta) especialista na recomendação personalizada de livros e que ajuda o seu paciente ou leitor na interpretação de uma determinada história que possivelmente o ajudará a lidar com as dificuldades emocionais de um determinado momento da sua vida.

Para nós leitores a ideia não é totalmente inovadora.

É neste exercício de interpretação dos livros que praticamos a interpretação dos outros, das pessoas que nos são próximas, das que são distantes, e vemos tanto daquilo que, mesmo na nossa diferença, partilhamos.

Uma das lições dos clássicos: de que independentemente da passagem do tempo e da enorme mudança das sociedades e das culturas, nós continuamos essencialmente os mesmos: humanos que desejam sobreviver, que se preocupam com quem mais amam, que sofrem por esse amor, que perseguem sonhos e dias melhores.

Podemos começar por um dos livros mais antigos do mundo, o primeiro a ser impresso e que é o exemplo maior no que diz respeito a uma coletânea de histórias: a Bíblia.

Quem não conhece a história de Adão e Eva? Quem não sabe tudo o que quiseram ensinar-nos ao longo dos séculos com ela? Todo o poder e a influência que este livro, estas histórias vêm tendo.

Na literatura, no cinema, teatro, nas artes em geral, fazemos interpretações, da bíblia, de tantas outras histórias, de partes delas. Porque quando partilhada, a história transforma-se, nunca é a mesma.

Tal como disse Samuel Johnson, um dos homens mais distintos da literatura inglesa, numa frase sua com que me cruzei recentemente:

“Um escritor apenas inicia o livro. O leitor termina-o.”

Todos temos as nossas histórias preferidas, especialmente nós os leitores e se assim é, como e o quanto estas nos influenciam?

As que adoramos, fazem-nos sonhar, tornam-nos mais felizes e até arrojados para conquistarmos mais, sermos melhores.

As que odiamos, ou tememos, deixam-nos alerta, apertam-nos o coração, por vezes aprisionam-nos sem darmos por isso, porque nos condicionam.

Falo destas histórias, as dos nossos livros, e também aquelas que permanecem na nossa cabeça e mesmo sem nunca existirem em papel, são reais para nós.

O que é a vida, senão uma história?

Nascemos, e a história começa. Morremos e a história acaba, ou talvez não.

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