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  • Writer's pictureMaria ISAAC

O que aprendi com... Almudena Grandes


Uma escritora que alcançou um feito admirável, conquistar popularidade entre o público de leitores e êxito no meio literário com um enorme reconhecimento pela crítica.


Neste episódio do podcast falo-te sobre Almudena Grandes, uma das escritoras mais célebres da literatura contemporânea espanhola.


Considerava-se uma mulher de sorte, porque os leitores lhe permitiram viver o seu sonho: uma vida dedicada à escrita.


Com Almudena Grandes aprendi que:

  • É possível ter o melhor de dois mundos em divergência

  • Que os leitores devem ser respeitados pois eles são a liberdade de um escritor

  • E que devemos estar sempre… agradecidos pela vida.



Bem-vindo a um novo episódio!





A vida de leitor é composta de inúmeras fases. Seja por períodos em que lemos muito, ou pouco; em anos dedicados à leitura de thrillers, de romances históricos, ficção, não-ficção ou até aquelas paixões literárias por certos e determinados escritores.


O meu último ano tem sido dedicado à literatura em língua espanhola. Por motivos profissionais precisei de melhorar o meu espanhol, e quem melhor, pensei eu, para ensinar um idioma do que os escritores?


Então fiz o que nunca fazia, voltei a ler livros pela segunda vez, mas na sua versão original e enchi as minha estantes com uma nova língua.


Para além de ter tido oportunidade de reler alguns dos meus livros favoritos, muitos anos depois, como por exemplo A Casa dos Espíritos, A Sombra do Ventos ou Cem Anos de Solidão… esta imersão na língua espanhola fez-me descobrir também novos autores como Fernando Aramburu, Rosa Montero e… Almudena Grandes!


O episódio de hoje é sim, sobre Almudena Grandes, mas se eu continuar nos próximos tempos embrenhada em escritores espanhóis ficas desde já a saber porquê.


Por estes dias muitos de nós temos estado imersos na Feira do Livro de Lisboa, muitos encontros, muitas conversas e… um dos temas, sempre quentes tanto nas conversas mais privadas entre sejam autores sejam leitores, tem que ver com a qualidade, ou a percepção de qualidade, de determinados livros.


Opiniões são sempre opiniões, mas, por norma, temos de um lado os ditos críticos literários, a elite, os nichos, e temos por outro o grande público, a chamada literatura comercial, popular.

Há argumentos de um lado e outro, como em todas as discussões (seja qual for o tema) e neste em particular fez-me lembrar desta minha recente paixão… Almudena Grandes, uma escritora que alcançou um feito admirável:

conquistar popularidade entre o grande público de leitores e o êxito no meio literário, com um enorme reconhecimento pela crítica.

Isto sim, é um verdadeiro feito!


Em entrevista Almudena Grandes diz: frequentemente, quando se fala da estrutura industrial das editoras, da influência do marketing, e de como o livro se tornou num objeto de consumo, os leitores são muito mal tratados, fala-se que os leitores não têm nível, etc. …e nessa discussão omite-se algo que para mim é fundamental: é que os leitores são a liberdade de um escritor.

Diz ela:

Eu escrevo os livros que quero ler porque os meus leitores me dão de comer. Se os meus leitores me falhassem, teria de começar a escrever os livros que “outros” querem que eu escreva… e aí tudo falharia… porque encontraria outros leitores, mas não os meus, não os que gosto.

Por isso os meus leitores são importantíssimos para mim, porque eles são a minha liberdade.

E continua dizendo:

(...) Falo sempre a favor dos leitores, os leitores são como uma estirpe de resistentes, entrar numa livraria neste instante em concreto da história, em que toda a gente tem em casa incontáveis distrações multicolores, entrar numa livraria e estar meia hora para escolher um livro, é um ato de resistência, porque exige consciência na escolha… podes estar a ver televisão e a fazer várias coisas ao mesmo tempo… estás a ler um livro não podes fazer outras coisas.



Almudena Grandes começou a escrever sobre a história do seu país quando se apercebeu de que havia “algo de estranho ao olhar o passado”, alguma coisa que não compreendia, que no tempo atrás de si havia um processo misterioso que tinha de ser desvendado.


Assim, grande parte da sua obra caracteriza-se pelo seu interesse pela história recente de Espanha, abordando temas como a Guerra Civil Espanhola e o regime de Franco. Os seus romances combinam frequentemente elementos históricos com enredos emotivos e personagens complexas, o que deliciou a crítica e o grande público.


Almudena Grandes recebeu numerosos prémios e distinções ao longo da sua carreira, incluindo o Prémio da Crítica de Madrid, o Prémio de Literatura de Madrid e o Prémio Sor Juana Inés de la Cruz. A sua obra está traduzida em várias línguas e goza de grande popularidade tanto em Espanha como no estrangeiro.


Ao apresentá-la assim, vai surpreender a muita gente saber que foi com um livro erótico que ela se destacou bem jovem e conseguiu reconhecimento.

“Las Edades De Lulu” é o título deste livro que penso não está traduzido para português, e seria “As idades de Lulu”

Um livro de ousadia, em que Almudena Grandes se quis mostrar capaz de abordar temas duros e delicados num período que se seguiu à ditadura.

Foi adaptado para cinema e também a sua adaptação foi um sucesso aclamado.


Como explicar este sucesso?

“Há muitos anos que ando a dar voltas a essa pergunta” diz Almudena rindo “eu e muita gente, e não sei se acabamos por chegar a alguma conclusão. É um romance que não triunfou por ser erótico, mas por ser o romance de uma geração… uma geração que foi educada para viver em adultos, num país que nunca chegou a existir, Franco morreu e nós, a minha geração, quis cortar com o passado, revoltar-se contra os nossos próprios pais. Agitou-se uma garrafa de champanhe durante 40 anos, quando se abriu a rolha explodimos. Uma geração que se propôs viver em excesso e sem culpa.”



Na sua obra distinguem-se duas etapas:


A primeira com 4 obras que espelham o universo sentimental das mulheres espanholas da sua geração. Onde ela explora conflitos de identidade, de uma panóplia de ângulos imenso, como ela própria o identifica: são desde conflitos de identidade sexual, sentimental, política, ideológica, familiar, moral, laboral até chegar aos profissionais e económicos, e por fim deu-se conta de que já não tinha mais nada para contar.


Um momento que, ela reconhece, que foi de profunda consciencialização e pânico. (eu consigo imaginá-lo bem) e então Almudena ao compreender isto, viu-se perante a famosa pergunta: o que vou eu escrever agora? Agora que faço?


Então, depois de uma temporada de incerteza, escreveu “o primeiro livro do resto da sua obra” O livro que lhe abriu a porta a algo diferente e que a deixava muito feliz. Esse livro foi “Coração Gelado… o início da segunda etapa literária, com um grupo de narradores omniscientes que adoptam diferentes visões perante os mesmos conflitos, e que se prolonga na que viria a ser a série “Uma Guerra Interminável”


“A Mãe de Frankenstein” é o quinto livro desta série “Uma Guerra Interminável” e foi a minha porta de entrada no universo de Almudena Grandes.


Este foi um livro para o qual encontrou inspiração para o escrever num caso real. Na história de uma assassina, Aurora Rodríguez Carballeira, que matou a própria filha com quatro tiros. Ela leu aquele artigo de jornal e a Aurora Rodríguez Carballeira ficou-lhe na memória porque nunca a conseguiu odiar, o que ficou consigo foi a pergunta: o que se passaria na cabeça daquela mulher?

E isto, é a melhor semente para uma história… a incompreensão sobre o outro.


Assim lhe surgiu a figura central para abordar a vida das mulheres espanholas, dando a conhecê-las ao mundo.


Em “A Mãe de Frankenstein”... conhecemos Aurora Rodríguez Carballeira pelos olhos de Germán Velázquez, um jovem psiquiatra que tem vivido no exílio há quinze anos e regressa a España para trabalhar num manicómio de mulheres onde reencuentra Aurora, que tem lá estado internada por ter assassinado a própria filha. Esta mulher muito inteligente, muito paranoica, fascinó German quando ele era ainda criança e o seu pai foi um dos intervenientes no julgamento desta.

Neste manicómio conhece María Castejón, uma auxiliar de enfermaría que tem vindo a cuidar de Dona Aurora ao longo dos anos e pela qual sente uma grande gratidão porque foi esta assassina paranóica que a fascinou durante toda a infância, foi quem a ensinou a ler e a escrever quando era uma menina pobre, apenas a neta de empregados do manicómio.

Germán, que se sente atraído por María, e que percebe que esta atração é mútua, não entende a sua rejeição e suspeita que a sua história de vida, tão intrincada com a de Dona Aurora, esconde muitos segredos.

Esta é apenas a linha narrativa mestra desta grande história. Descobre-se muito sobre estas duas mulheres, sobre outras mulheres que habitam o manicómio, assim como os médicos, e muitas outras personagens da vida pessoal de German durante o seu exílio na Suíça.


A envolver todo este conjunto de personagens riquíssimas, Almudena Grandes retrata uma españa submergida por um ambiente opressor, dirigida por uma classe de políticos e um clero que encobre abusos, impede o progresso, em nome dos bons costumes e em favor de interesses próprios.


Mas atenção, esta série “Uma Guerra Interminável” não se trata de um retrato sobre a ditadura de Franco, nem sobre a política, a igreja… é uma série, uma obra sobre as pessoas! As personagens são a alma e a verdadeira riqueza da obra de Almudena Grandes.

Tem um trabalho de investigação história gigantesco, obviamente, admirável, mas são as personagens criadas por ela que agarram o leitor, que nos fazem ler e ler e ler.


Tenho de admitir que não me surpreendia tanto com uma descoberta literária desde… desde que li Vargas Llosa pela primeira vez… e é maravilhoso!

… e quando digo isto, qualquer leitor percebe o que estou a quero dizer, porque descobrir um novo escritor favorito… ainda por cima com uma obra tão vasta, é como descobrir mais um país, ou antes, todo um continente com muitos países… onde de certeza nos vamos perder por hora e horas e ser muito felizes!



Infelizmente, Almudena Grandes faleceu recentemente, em 2021, com apenas 61 anos, com certeza, com tantas outras histórias maravilhosas ainda por contar.


Mas considerava-se uma mulher de sorte, ou antes, ainda mais do que uma mulher de sorte como o confessou em entrevista, uma mulher privilegiada. Porque o é qualquer pessoa que consegue dedicar-se a um trabalho vocacional. Sempre desejou ser escritora, foi uma GRANDE escritora.


Quando questionada sobre qual a diferença entre a Almudena que escreveu Lulu o seu primeiro livro de sucesso e a que escreveu “Os Pacientes do dr. Garcia”, sorri, responde: 30 anos, muito tempo, ganhei coisas, perdi coisas, mas fiquei a ganhar, porque felizmente amadurecer não é só engordar e ganhar rugas, agora escrevo muito melhor, sou mais consciente.


Tem medo de perder leitores?

"Não. Porque não posso pensar nisso. Que tipo de escritora seria eu se na hora de escrever um livro pensasse ai que vou perder leitores… acredito que esse é o caminho direto a um mau livro e nunca o devemos tomar."


Escrevia todos os dias, a trabalhar em algo que não existia, porque diz-nos Almudena Grandes um livro não existe até ser terminado.


Links para as entrevistas citadas:


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