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  • Writer's pictureMaria ISAAC

Desistir de uma leitura? Eis a questão!

É inevitável, todos nós já tivemos um certo livro nas mãos que não se revelou à altura das expectativas e, a determinado momento, vimo-nos apanhados no dilema: devo desistir? Ficar por aqui. Ou, devo persistir? Continuar a penosa experiência que está a ser a leitura?

Apesar de não haver uma escolha certa ou errada entre estas duas opções, todos nós temos a nossa opinião pessoal sobre abandonar uma leitura, se o fazemos, se não o fazemos, o porquê e em que circunstâncias ou sob que critérios.

Neste episódio vou partilhar os melhores argumentos a favor e contra, para que da próxima vez que estiveres perante esta decisão, não te restem dúvidas do que queres fazer.

Bem-vindo!


Há alguns episódios atrás, no episódio intitulado “Tantos livros e tão pouco tempo”, falei-te sobre esta nossa vontade de ler mais. Não importa quantos livros lemos porque gostávamos sempre que fossem mais alguns. E apesar das dicas que partilhei para conseguirmos tirar um bocadinho mais partido do pouco tempo que temos para ler, no final das contas o dia tem 24 horas e 8 delas devem ser para dormir e nada muda isso.

Com esta limitação do tempo para as nossas leituras, convém que ele seja dedicado a livros que nos dão prazer a ler. Isto, seria possível num mundo perfeito em que todos os livros que nos vem parar às mãos se revelam ser tudo aquilo que nós leitores sonhamos que eles serão, naquele momento de euforia em que o escolhemos na livraria e decidimos levá-lo para casa, porque afinal, é para esses momentos maravilhosos que vivemos: quando folheamos mais um livro favorito, não é verdade?

Só que o mundo não é perfeito e quando finalmente abrimos o dito livro para o ler, muitas vezes ele revela-se uma desilusão.

  • O ambiente da história não nos cativa nem envolve

  • Vem com personagens que nos deixam indiferente ou não são de forma nenhuma credíveis

  • Com um enredo em que nos perdemos (não pelos motivos certos) mas porque já nos esquecemos do fio condutor e é preciso voltar atrás, reler a frase, o parágrafo completo porque de repente estamos mas é a pensar no que vai ser o jantar

  • E lá nos pomos a contar as páginas que ainda faltam para acabar…

  • …ou simplesmente até poderá ser um bom livro, mas aquele é o momento errado…

Sejam quais forem as razões para o descontentamento, se não o abandonamos, pelo menos pensamos em fazê-lo.

E é aqui que surge a grande dúvida:

É aceitável desistir de um livro?

Esta é a pergunta da discórdia…. Porque na verdade existem bons argumentos contra e a favor desta decisão tão difícil de parar uma leitura e abandonar uma história muitas páginas antes do seu fim.

A hesitação em desistir até é fácil de entender:

Quando escolhemos ler um livro há uma vontade em nós de entrar no mundo que ele guarda e fazer parte dele, de descobrir até onde o autor nos quer levar… e essa disponibilidade, mental e emocional, leva-nos a querer honrar a nossa decisão, uma espécie de compromisso privado e silencioso que assumimos para connosco mesmos e indiretamente com o autor.

Há aquela esperança de que, mais lá para a frente, com mais algumas páginas as coisas comecem a correr melhor, que o que não entendemos passe a fazer sentido e que as personagens a que somos indiferentes finalmente nos emocionem.

Afinal, se já nos aconteceu antes, isto de um livro começar morno e depois levar um volte de face que acaba por o redimir, pode acontecer novamente, mas só se persistirmos na tortuosa leitura por páginas que parecem não ter fim.

Noto que isto acontece com muitos leitores especialmente quando se trata de livros que são amplamente divulgados e muito elogiados, porque se toda a gente parece gostar deles, com certeza que alguma coisa nos está a escapar.

E lá persistimos, muitos de nós como bons católicos que somos e bem educados a não nos deixarmos vencer por insignificantes tormentos. As dificuldades de uma luta são professores experientes que nos deixam mais fortes e orgulhosos na conquista da última página, contra tudo e contra todos, incluído sono, tédio e frustração.

Desistir significa assumir que fizemos uma escolha errada, e sabemos que isso não é fácil para ninguém.

Depois há sempre aquela opção intermédia, também a favorita de muita gente: pousar o livro num cantinho, com a página marcada e a promessa de voltar a ele mais tarde, ainda que esse mais tarde seja dali a alguns anos.

Mas há quem garanta que não tem dúvidas nem hesitações.

Quando não sente prazer na leitura de um livro, ele é posto de lado, sem peso na consciência, se considerações sobre o “talvez” mais há frente ou “talvez” melhore… se não é o livro certo, não é o livro certo, o facto de “ainda” estarem nos primeiros capítulos é antes vistos como “já” foram lidos os primeiros capítulos.

Como consta da teoria do copo meio-cheio e meio-vazio é uma questão de perspetiva.

O principal argumento referido por quem não tem hesitações em deixar um livro de lado é: o tempo é limitado e existem demasiados livros bons para serem descobertos.

Quanto a mim, é sabido, em episódios anteriores aqui no podcast já assumi que me incluo neste grupo de leitores. O tempo é limitado e existem demasiados livros bons para serem descobertos.

Mas para cada leitor disposto a desistir, os critérios que segue para tomar essa decisão são muito pessoais.

Pode ser a regra das 100 páginas, de ler pelo menos 100 páginas, ou então 100 páginas menos a própria idade… que é a minha favorita (quanto mais velhos somos menos tempo temos a perder com hesitações e a minha tolerância será reduzida muito em breve para as 60 páginas)

Há também a regra dos terços, de ler pelo menos um terço do número total de páginas de cada livro e então tomar uma decisão.

Algumas regras como estas (e os mais variados e incontáveis critérios que possamos criar) podem ser uma boa ajuda, mas acredito que esta é uma decisão essencialmente de instinto. Cada leitor sabe, sente, quando uma leitura não é o que deveria ser.

Se para alguns esta é uma decisão muito fácil (desistir ou persistir), na minha experiência pessoal, não o foi. E neste episódio estão todas as razões que durante muito tempo me fizeram hesitar.

Ao fazer um balanço, não sinto qualquer arrependimento pelos livros que deixei para trás porque mudou a minha relação com a leitura para melhor.

Hoje dedico mais atenção e cuidado à escolha dos livros e sou mais consciente nas compras que faço. Se tenho dúvidas, leio algumas páginas na livraria antes de comprar, ou vou espreitá-los à biblioteca.

Ofereço ou vendo grande parte dos livros que abandono, e fico apenas com alguns, os que identifico como bons livros que tiveram o azar de se cruzar comigo na altura errada, e aos quais pretendo voltar no futuro. Porque os nossos gostos literários também mudam ao longo do tempo, às vezes sem darmos conta, às vezes de um dia para o outro.

Para mim desistir de um livro é sem sombra de dúvida consequência de o tempo ser um bem limitado. Pois asseguro-vos que a partir do momento em que alguém descobrir um comprimido para a vida eterna, de preferência que inclua manter as minhas faculdades básicas a operar na sua plenitude, nunca mais desistirei de um livro! Fica aqui a promessa.

Já é tão difícil conseguir ler entre o tumulto que nos rodeia lá fora. O livro que estamos a ler não deve tornar os nossos dias ainda mais difíceis.

Abandonar um livro não é um defeito de personalidade ou caráter, é apenas uma opção.

É normal hesitarmos?

É, porque investimos num livro mesmo antes de o começar a ler, investimos energia na sua escolha, dinheiro na sua compra e tempo na leitura daqueles primeiros capítulos que nos começaram a desiludir e nos fizeram ponderar.

É normal hesitarmos porque está na nossa natureza ligarmo-nos a histórias, mesmo que estas não sejam do nosso agrado, que as suas personagens não nos cativem, queremos saber como terminam, qual o seu destino final, se é feliz ou infeliz, justo ou injusto, há uma curiosidade em nós que nem a desilusão consegue apagar.

Mas hesitamos porque “parece mal desistir” ouvimos dizer “desistir é para os fracos”.

Há tanto mérito em desistir de um livro, ou de qualquer outra coisa que não sentimos ser boa para nós, como em persistir na sua leitura e manter-nos fiéis a uma história que, mesmo sem nos agradar, mesmo a testar os limites da nossa vontade, sabemos que terminá-la tem um propósito.

Nunca desistas de um livro, ou de fazer qualquer outra coisa, se fazê-lo vem com um propósito, e se concretizá-lo faz parte de um plano maior.

Desistir ou persistir? Só tu o saberás.

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