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  • Writer's pictureMaria ISAAC

Literatura de terror: medo e a coragem para o enfrentar

“O medo é uma coisa maravilhosa, em pequenas doses.” disse Neil Gaiman.

No mês do horror e do assustador, falo-te deste género literário que tem sido uma incógnita para mim, porque como qualquer leitor, também sigo a tentação das minhas paixões literárias e sou negligente com tudo o resto.

No episódio de hoje, falo sobre o fascínio pelas histórias sombrias e sobre o muito do que elas nos oferecem para conseguirmos enfrentar os nossos medos.

Bem-vindo, a mais um episódio.


Porque razão contamos histórias assustadoras? Porque as escrevemos e as ouvimos? Qual a razão de ser deste prazer que surge em histórias que não têm outro propósito senão assustar-nos?

Eu não faço ideia… mas talvez a resposta faça parte do próprio mistério dos contos de terror. Eles são mais antigos do que os esqueletos e os fantasmas que os protagonizam, mais mágicos e diabólicos do que as suas bruxas, lobisomens ou mortos-vivos.

Neste época do ano, temos o ambiente perfeito para percorrer as nossas prateleiras e procurar por aquele livro de horror que compramos para ler “um dia”.

Eu não tenho muitos, aliás, a verdade é que só encontrei dois. O clássico, que talvez também tenhas, de contos de Edgar Allan Poe e um outro dos contos dos irmãos Grimm.

Como qualquer leitor, sigo as minhas paixões literárias, os géneros e escritores que me dão prazer a ler e vou deixando tudo o resto para depois.

A literatura de terror, ou horror, ou gótica ou noir, nas suas diversas variantes de nomenclaturas e sub-géneros, pertencem a uma categoria com a qual, até hoje, não me identifico enquanto leitora, mas que ainda assim me deixa curiosa.

Trouxe para casa estes livros com coletâneas de dois clássicos do horror justamente por curiosidade. Não importa se se gosta ou não do género, ou até de leitura, estes são nomes que fazem parte do imaginário do mundo ocidental quando se fala em terror.

Edgar Allan Poe, poeta norte-americano, que morreu de forma triste e assustadora como tudo aquilo que escreveu. Deixou uma obra diversa com poemas, contos, romances.

É considerado o fundador dos géneros de mistério e horror como estilos literários. O seu poema mais famoso é “O Corvo”, e tal como este, muitas das suas obras abordam a temática do sofrimento causado pela morte.

Li num artigo que Poe acreditava que não existia nada mais romântico do que um poema escrito sobre a morte de uma mulher bonita.

Quanto aos contos dos irmãos Grimm, ouvi dizer que as histórias são aterradoras, mas a maioria de nós - nós aqui sou eu - conhecemos apenas as versões adaptadas para crianças de histórias como a Cinderela, Branca de Neve, Rapunzel… todos eles (pelo que dizem os fãs) destruídos pela Disney.

Podemos começar nos clássicos, mas há uma vastidão de possibilidades, são casas assombradas, os seus fantasmas, assassinos, mortos-vivos, bruxas, a noite e os seus animais noturnos.

Pelo que parece, por cá, não temos muitos escritores portugueses clássicos que se tenham dedicado ao género terror, mas ainda assim encontrei quatro nomes para fazer uma lista de introdução à literatura gótica em português, e são eles: Alexandre Herculano, Teófilo Braga, José Régio e Mário de Sá-Carneiro. E parece que o nosso Eça de Queirós também tem alguns bons escritos.

Se já leste algum deles, dentro deste género, partilha a tua opinião comigo e diz-me por onde devo começar. Preciso de toda a ajuda possível.

Mesmo sem termos uma tradição forte de escrita de terror em Portugal, na atualidade estão a surgir nomes que se tornam incontornáveis no género. Refiro-me por exemplo a David Soares autor de “Batalha” e “Lisboa Triunfante”; ou Filipe Melo na banda desenhada, do qual conheço “As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e PizzaBoy”… mas que a grande maioria dos leitores conhecerá pelo seu mais recente sucesso “Balada para Sophie”.

Num ensaio escrito para a revista BANG, David Soares abordou o tema do horror literário em português identificando a censura levada a cabo pela Inquisição como uma das principais influências para este vazio de criação em Portugal no que respeita a literatura de horror e fantástico. É um artigo que vale a pena ler e por isso deixo-te o link no blogue.

Por tradição, estas histórias abordam o que está nas sombras, nas margens e nos contornos daquilo que nos rodeia no dia a dia. As insónias, não são uma coisa do acaso, é na escuridão que melhor vemos os nossos medos.

Como é possível serem tudo isto e darem-nos também prazer na leitura?

Talvez, por toda a nossa tradição de Era uma vez...? O gosto que a humanidade tem por uma boa história… e em especial neste período de halloween uma combinação perfeita de: histórias, guloseimas e uns bons sustos como shots de adrenalina.

Sim, consigo ver que há um centro encanto hipnótico nestes contos aterradores.

Eles lembram-nos de que apesar de existir o assustador, o vil, o maléfico, a possibilidade do pior poder acontecer, a qualquer um de nós… ainda assim continuamos a vencer, estamos vivos. E não é só “estamos vivos”, é também o quão maravilhoso é viver e o privilégio desta experiência.

Talvez todos estejamos assombrados, a todo o momento, por nós próprios. Pelos fantasmas que constituem as histórias das nossas vidas, que por vezes são boa companhia outras não, e pelos olhares dos outros, que nos dizem tanto e que tantas vezes, pelos nossos medos, no escuro, não conseguimos interpretar bem.

Como disse Stephen King, mestre mundial do terror:

“Os monstros são reais, os fantasmas também são reais. Eles vivem dentro de nós, e por vezes, vencem.”

É bom sentir o medo, e logo depois poder fechar o livro, e sentir que “está tudo bem”... nós continuamos em segurança, foi apenas um susto, um instante, uma boa história. Estamos de volta à nossa vida.

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