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  • Writer's pictureMaria ISAAC

Manias de Escrita

Alguma vez pensaste em como terá sido escrito aquele livro maravilhoso que acabaste de ler?

Não me refiro à curiosidade eterna “de onde terá vindo aquela ideia?” mas sim em como terá sido para o escritor escrevê-la, palavra após palavra, mês após mês… em muitos casos durante anos.


Pois bem. Eu resolvi perguntar-lhes.

Neste episódio do podcast tenho convidados muito especiais… eles são, nem mais nem menos, do que alguns dos nossos escritores portugueses contemporâneos favoritos:


Helena Magalhães

Hugo Gonçalves

Iris Bravo

João Reis

Nuno Nepomuceno

Ricardo Fonseca Mota

Susana Amaro Velho


***

Nos últimos dois meses, apanhei covid, como tanta gente, mas foi uma febre de escrita de escrita que me apanhou de jeito e me manteve fins de semana inteiros em casa com hábitos muito pouco saudáveis, meia-alienada.

Perdoem-me família e amigos.


Esta “febre de escrita”, como a baptizei há alguns anos, é um estado de espírito que aprendi a reconhecer como parte do meu processo de escrita, e hoje em dia, apesar de continuar a ser um pouco estranho, lido com ela tal como uma verdadeira febre, que mais tarde ou mais cedo, vai passar, mas que enquanto dura tem de ser gerida. Uma espécie de loucura controlada.


Mas agora, que volto a sentir-me mais “eu-normal” lembrei-me de todos os outros escritores que também têm as suas próprias experiências de escrita e fiquei curiosa para descobrir sobre este processo de criação que é sempre único.


Então… fiz o que todos fazemos: google!

Foi fácil, se procurarem hábitos de escritores são 18 milhões e 400 mil resultados.

Eu li alguns e tudo se resume a cerca de 15 ou 20 escritores famosos, na sua maioria clássicos, com hábitos curiosos, alguns mais loucos do que outros… o que gostei mais foi de Victor Hugo, o escritor francês que nos deixou clássicos como “Os Miseráveis” que adquiriu o hábito de escrever nu, e de pé. Ele dava ordens ao mordomo para lhe esconder as roupas até que ele tivesse terminado o que propôs fazer.


Existem muitos artigos curiosos, que vale a pena procurar e ler, até porque são escritores que com certeza já todos nós lemos.

Mas no que respeita à minha curiosidade, não me serviram de nada… isto porque, eu, escritora portuguesa, ainda a respirar e caminhar no assustador ano de 2022, pouco me consigo identificar com autores que viveram no século passado, na américa, inglaterra, frança como o nosso excêntrico Vitor Hugo e o seu mordomo… ou mesmo que sejam escritores contemporâneos, mas cujo contexto cultural nada tem que ver com o meu, por muito que admire o seu trabalho e até gostasse de ser como eles quando crescer.


Refinei então a procura: hábitos de escritores portugueses

De 18 milhões de resultados no Google passamos para 3 milhões 720 mil, mas… de artigos que falam sobre “hábitos de leitura portugueses” e nada do que eu realmente queria saber.


Já sabes qual foi a minha ideia genial que se seguiu, não é?


Pois assim aconteceu. Enviei mensagem a alguns dos nossos escritores portugueses contemporâneos favoritos e perguntei-lhes qual é a sua fórmula mágica? Hábitos, superstições, tiques, manias ou fobias.

Eles aceitaram o desafio, responderam-me, e alguns deles a viva-voz.



(Helena Magalhães)


O medo de perder o manuscrito!

Eu fiz precisamente o que a Helena fazia (antes da maravilha do google docs) …quantos emails enviados para mim mesma!

Até hoje é uma fobia que continua a reinar os meus temores diários e pesadelos noturnos: perder o que escrevi… e nem precisa ser o manuscrito inteiro, um parágrafo basta.


Todos conhecemos o Ferozes, o mais recente livro da Helena, um livro de não-ficção… mas que se lê tão bem como se fosse ficção… é como se o género do ensaio e da autobiografia decidissem ter um filho rebelde e voilá: o Ferozes!

Quando o li não me lembrei nem por instantes deste trabalho de pesquisa, de leitura de muitos outros livros… que é característico da escrita de não-ficção. Talvez por aquele sentimento alinhamento de almas que sentimos com o escritor, pois se nos é fácil e bom ler um livro, imaginamos que também foi fácil escrevê-lo.


Obrigada, Helena, e numa próxima vou pedir-te que partilhes algumas dessas mezinhas!




Hugo Gonçalves, é o escritor que se segue, e vem destruir o maior dos mitos. Talvez tenhas lido “Filho da Mãe” que acho que se tornou no seu livro mais popular, ou o recente “Deus, Pátria, Família”… mas seja qual for, com cerca de 10 livros publicados, traduções e tantas colaborações com revistas e jornais que nem me vou atrever a tentar nomeá-los aqui, o Hugo bem sabe do que fala.


(Hugo Gonçalves)


Dizem que os gostos em comum nos aproximam, o contrário também é verdade, porque eu bem que gostei de saber que partilho uma neura com o Hugo. Adivinhaste qual? Hmmm pois é aquela gente que mastiga como um herbívoros esgalgado…


Trabalho, método, um ofício que se pratica diariamente. Escrever bem é uma arte a praticar… e ouvi-lo dito pelo Hugo, pelo Philip Roth não deixa margem para dúvidas de que assim é!

Aliás, eu lembro-me de o Hugo dizer que quando lhe perguntavam qual a profissão que exercia ele costumava responder: trabalho nas obras.


Ah! E não resisto a uma confidência. Talvez te recordes de um episódio anterior em que falei sobre as muitas pessoas que colaboram para a criação de um livro, as que aparecem naquela primeira página técnica e que há ainda algumas que nem lá vêem mencionadas… pois o Hugo Gonçalves foi uma destas pessoas para o Onde Cantam os Grilos, há uns bons aninhos atrás, e não posso perder a oportunidade de lhe agradecer algumas das dicas e sugestões que me deu e que bem as aproveitei.



Já a Iris Bravo, autora mais romântica do nosso coração, sempre nos tops das livrarias por este país fora e que nos trouxe há bem pouco tempo um novo livro “O Regresso de Julie Blue”, diz conseguir reinar no caos… ora oiçam-na:


(Iris Bravo)


Obrigada, Iris.

Pois… ela conquista-nos não apenas com histórias apaixonantes.


A Íris mencionou uma parte fundamental no processo de escrita que é a revisão, e na resposta dela percebe-se o quão distintos são estes dois momentos: escrita e revisão, um momento criativo e um crítico.

Ela consegue escrever “no caos”, como lhe chama, aquela vida que existe nas nossas casas com os barulhos e outras pessoas em redor, mas… para a revisão, essa, ela precisa da noite e do silêncio.


É preciso não esquecer que um autor lê e revê o seu livro dezenas de vezes antes de ficar pronto… são muitas horinhas a queimar pestanas.


(João Reis)


Digo-vos já que todos estes escritores me disseram “ah, não há nada de especial no meu processo de escrita” e tentam desmistificar a coisa, mas, o João Reis foi o que mais se contradisse na tentativa, porque nas mensagens que troquei com ele, disse:


“Tento sempre ter um caderno (ou vários) à mão, no qual anoto diversas ideias que me ocorrem ao longo do dia. (...) Costumava ter esse meu caderno ou bloco na mesinha de cabeceira, para anotar ideias que me ocorriam a meio da noite. Anotava-as amiúde sem acender a luz. Mas perdi esse hábito quando me tornei pai.”


João, não imaginava que se pudesse tomar notas de luz apagada, e fico curiosa para saber a caligrafia que sairá daí.. E como a consegues decifrar na manhã seguinte.


Mas esperem que o melhor está para vir, porque o João Reis, autor d’A Noiva do Tradutor e mais recentemente Cadernos da Água, escreve no seu computador sempre virado para Norte!

Maravilhoso, eu que amo o Norte de paixão tenho de experimentar. Agora que sei desta não dá para esquecer.

O João Reis assume-a como excentricidade e ainda partilha mais uma:

"também alterno a escrita em português com a escrita em inglês.”

Imagino que esta venha da sua faceta de tradutor e fez-me lembrar de um artigo que li há algum tempo sobre o facto de o nosso cérebro funcionar de forma diferente consoante a língua em que estamos a pensar.


Isto no que toca à criatividade, vale tudo!



Estão recordados daquela minha pesquisa inicial, a que me levou aos hábitos dos autores estrangeiros? Pois bem, dois dos pontos mais repetidos nesses artigos eram: rotinas e manhãs. Ou seja, criar rotinas e escrever de manhã são referidos como dois segredos fundamentais para escrever bem e com produtividade.

O Nuno Nepomuceno, que vão ouvir já de seguida, autor da série Afonso Catalão, indispensável nas estantes dos fãs de thrillers, é o mais internacional dos autores no que respeita ao seu processo de escrita porque ele é o único, neste nosso pequeno grupo de escritores portugueses, que privilegia as manhãs e as suas rotinas… metódico no que chama as suas “regras de conveniência”


Audio (Nuno Nepomuceno)


Tal como o Nuno Nepomuceno, eu também preciso de ter um bloco de várias horas disponíveis para escrever, o meu cérebro não tem grande velocidade de arranque, como costumo dizer, é mais tipo, aqueles motores antigos que era necessário deixá-los a trabalhar um bocado para aquecer e só depois funcionavam em condições.



Já deu para percebermos, que a escrita, para todos, é um processo composto por várias etapas, e o Ricardo Fonseca Mota, autor de As Aves Não Têm Céu, foi quem partilhou toda esta linha de abordagem ao processo criativo precisamente como uma metodologia, ele disse:

“Divido-o em dois momentos distintos: criação e escrita.

O primeiro é permanente. Registo ideias, textos, pesquisas, imagens, músicas, arte, cinema, (...) e outros materiais que, em simultâneo com a criação, vão dando corpo à peça artística em que estou a trabalhar.”

Depois vem então o momento da escrita que ele encara, tal como o Hugo Gonçalves, como um ofício.

Diz ele:

“Ultrapassadas estas etapas, vem outra fase oficinal e exaustiva. A revisão é a tarefa menos prazerosa mas uma das mais importantes.”


Do estilo metódico do Ricardo levamos uma reviravolta de 180º e somos deixados de cabeça para baixo pela Susana Amaro Velho, nada que me surpreenda vindo da autora do Inquieta, que define o seu processo de escrita como living on the edge


(Susana Amaro Velho)


Pois é… esperar pela inspiração, as condições ideais parece ser mais um mito. Escreve-se quando os filhos deixam!

E a música, que a Susana não dispensa em alto e bom som, e… cafeínada, parece ser o portal mágico para aquele lugar tão estranho para onde se vai criar histórias.


Foi por coincidência da ordem do alfabeto que a Susana encerra este grupo de escritores, e ainda bem, porque não poderia terminar com uma mensagem mais forte do que a dela: quando se sente uma paixão, paixão pela escrita e por contar histórias, encontramos sempre lugar e um tempo para ela… ainda que super-cafeínada!


***

Escrever de manhã, ou à noite?

Será necessária uma rotina de escrita?

Quais as melhores ferramentas para se ser mais produtivo?

Devo escrever no silêncio, em solidão? Com música? Entre o caos?


E o que fazer com tudo o resto? Como gerir tudo o resto que compõem a vida, o dia-a-dia, e que não pára só porque tudo o que mais se quer é escrever.


As perguntas são muitas e as respostas certas, inúmeras.


Ao ouvir estes escritores percebi que a noite é a grande companheira de escrita e é com ela que nascem as suas grandes histórias, na companhia de cadernos e blocos de notas, ao ritmo da música, da nossa língua, da vontade de criar em português.


Uma parte de nós pode até pensar que os grandes escritores são simplesmente geniais, nasceram assim e portanto basta-lhes a sorte do talento com que nasceram e já está, nasce um grande livro!

Estes escritores dizem-nos que não é bem assim.


O que distingue então os grandes escritores de todos os outros?

Muitas respostas possíveis, que normalmente mencionam palavras como: trabalho, perseverança, improviso, insónias, método… muitas palavras que não podem ser simplesmente substituídas por talento, sorte, génio.


Obrigada Helena, Hugo, Íris, João, Nuno, Ricardo e Susana… depois de ouvirmos este episódio podemos imaginar-vos mais facilmente, talvez neste preciso momento, enquanto escrevem o nosso próximo livro favorito.


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