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  • Writer's pictureMaria ISAAC

O que aprendi com... Isabel Allende

Ela decidiu escrever uma carta ao avô e essa carta transformou-se numa história mágica chamada A Casa dos Espíritos.

Isabel Allende está entre as grandes escritoras da língua espanhola, traduzida em mais de 40 idiomas, e o seu primeiro livro A Casa dos Espíritos foi um daqueles raros sucessos de estreia, com o qual todos os autores sonham e temem.

Porque escrever um bom primeiro livro é um desafio que alguns superam, mas é no segundo livro que um verdadeiro escritor se prova.

Isabel Allende provou-se uma escritora GIGANTE, e uma mulher de dimensão a condizer, que me ensinou que:

  • Uma grande história pode ser escrita na mesa de uma cozinha no silêncio da noite

  • Que o feminismo pode até ser antigo, mas nunca passou de moda

  • E que escrever e viver… são ambas artes a praticar sempre com paixão!

Bem-vindo a mais um episódio!


Isabel Allende escreveu o seu primeiro livro aos 40 anos. Disse: “Se eu tivesse nascido homem, teria escrito as minhas memórias aos 19 anos. Mas nasci mulher, nos anos 40, numa sociedade muito conservadora, católica e fechada, onde era esperado que as mulheres fossem mães, de alguém, esposas e talvez, que fizessem algum trabalho para ajudar nas despesas mensais mas não era suposto que fosse bem-sucedidas em nenhuma área que fosse dos homens.”

Sem uma figura-modelo feminina na literatura, Isabel Allende tornou-se jornalista e manteve guardado um sentimento, um desejo de escrever histórias, que, nas palavras da própria “nunca se atreveria a pronunciar” pois “seria tão arrogante tão presunçoso” dizê-lo.

Depois do golpe militar no Chile, exilou-se na Venezuela onde teve grande dificuldade em encontrar trabalho como jornalista e se manteve a guardar as histórias que tinha dentro de si.

Até… 8 de janeiro de 1981.

Tudo começou na mesa da cozinha, com uma carta destinada ao seu avô, escrita ao longo de muitas noites, e que veio a tornar-se no seu primeiro livro (e que livro!) intitulado A Casa dos Espíritos.

Todas as suas futuras histórias, os seus livros que se seguiram também começaram a 8 de janeiro, porque esta é a data em que Isabel Allende escolheu começar a escrever todos eles. Isto sim, é superstição e método!

Com o sucesso de A Casa dos Espíritos o seu agente de então disse-lhe que “sim, este é um bom livro, e está a sair-se muito bem, mas não faz de ti uma escritora, um escritor prova-se no segundo livro; porque toda a gente consegue escrever um bom primeiro livro no qual colocam tudo de si mesmos, tudo o que são, é o segundo livro que faz de ti uma escritora.”

Então Isabel Allende pôs-se de imediato a escrever um segundo livro para se provar escritora. E como veio a consegui-lo de forma majestosa!

Hoje são mais de 20 livros publicados em mais de 40 idiomas e neles alguns temas são recorrentes, como o misticismo, labirintos de coincidência, premonições, sonhos, intuições, magia e também a violência, morte, questões sociais e políticas, a liberdade.

E as mulheres, mulheres fortes e protagonistas das próprias vidas, são transversais aos livros de Isabel Allende.

O seu feminismo é tão conhecido quantos os seus livros e é possível vê-lo espelhado nas histórias que conta assim como em muitas das entrevistas que podemos encontrar numa pesquisa rápida pelo Youtube.

Numa palestra TED, intitulada Contos de Paixão, ela partilha diversas histórias de mulheres anónimas, mas incríveis, dando visibilidade a situações de discriminação, injustiça e violência que continuam a ser uma realidade para muitas mulheres.

O feminismo pode até ser antigo, mas nunca passou de moda, diz ela, se não gostam da palavra, inventem outra, porque os ideais que defende continuam a precisar de ser defendidos por todos, homens e mulheres.

Apesar de o mundo ocidental ter feito, sem dúvida, grandes progressos nas últimas décadas, não esqueçamos o resto do mundo, que ele não tem avançado ao mesmo ritmo, e todas as mulheres que continuam a viver nele.

Isabel Allende é uma escritora que foi além do enorme poder das suas palavras e criou uma fundação dedicada a apoiar programas que promovam e preservem direitos fundamentais de mulheres e crianças.

Ouvi Isabel Allende falar sobre o seu processo de escrita e, tal como já a imaginava, ela descreve-o de uma forma tão honesta e simples que só poderia ser inspirador.

Ela diz que quando se senta para escrever, pensa apenas na história… e ao dizê-lo ilumina-se com um sorriso dos verdadeiros apaixonados pela sua arte…

então, começa, como sabemos, a 8 de janeiro, depois de ter feito antecipadamente as pesquisas que considera necessárias, de ter todas as peças de um puzzle que será o cenário da sua história, foca-se na personagem sobre a qual pretende escrever… ela dá o exemplo do livro “A Ilha Debaixo do Mar” que era sobre uma mulher escrava… e esse é o ponto de partida, ela tem uma “imagem” desta mulher, sabe quem ela é… mas a sua história, o que vai acontecer-lhe, ela não sabe… à medida que vai escrevendo, a história surge e desenvolve-se por si própria… com paciência… até que a personagem faz algo inesperado e é aí que a história se impõem e passa a existir… a fluir.

As restantes personagens surgem à medida que vão sendo necessárias, explica-nos: Se existe uma mulher escrava, é necessário um mestre, e uma família, e outros escravos, e pessoas que ajudem esta mulher a conseguir a sua liberdade, alguém apaixonado por ela.

Dito assim, parece tão simples, não é?

Para mim, sentar-me para escrever sem saber o que vou escrever, não é sequer uma possibilidade. Passo vários meses a arquitetar a estrutura de um novo livro, a delinear a história, dias e dias em longos diálogos com as minhas personagens, a ponderar como as vou dar a conhecer, capítulo a capítulo.

Há muito pouco de impulsivo, improviso nas minhas histórias. Adoro escolher as palavras trabalhar as frases, usar tudo o que a nossa lingua maravilhosa, a lingua portuguesa, nos permite fazer.

Não deixa de ser curioso, entre tantas incongruências deste nosso espírito humano, também esta: a da nossa procura por um idealismo espiritual e de valores, quando o que mais nos fascina são os defeitos, os nossos, ou dos outros, os das personagens nas histórias que não conseguimos esquecer, aquelas personagens tão imperfeitas que ignoraram as regras, abdicam da segurança, não ouvem bons conselhos e quase sempre sofreram as consequências.

Tolstoi deu-nos Ana Karenina; Gustavo Flaubert, Madame Bovary; Dostoevsky, Raskolnikov… Isabel Allende Esteban Trueba.

Porque como ela própria diz: pessoas simpáticas com bom senso não fazem personagens interessantes.

Se assim é, o que as torna desinteressantes?

Será que procuramos nos livros que lemos mais do que ideais? Ou antes, mais do que os simples ideais daquela espécie que a sociedade nos oferece de bandeja numa versão simplificada da fórmula para a felicidade?

Procuramos talvez identificação, a garantia de que não estamos sozinhos, em especial, nos nossos defeitos.

“Em quase todas as famílias há um idiota e um louco.” Lemos numa das páginas de A Casa dos Espíritos.

Criadora de personagens inesquecíveis, ela define como essencial: um coração cheio de paixão, porque, é sempre o coração que nos move e nos determina como pessoas.

“Eu quero tornar este mundo bom” diz Isabel Allende “não melhor, bom, porque não? Se é possível.”

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