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  • Writer's pictureMaria ISAAC

O que aprendi com… Jorge Amado

Uma das figuras maiores da cultura brasileira do século XX, Jorge Amado é incontornável quando falamos de literatura em língua portuguesa, de grandes romances, histórias e personagens inesquecíveis.

Pois quem pode esquecer Tieta do Agreste, D. Flor e seus dois maridos, Teresa Batista cansada de guerra ou Gabriela, cravo e canela?

Com uma história de vida igualmente marcante, Jorge Amado foi não só escritor, mas também político, homem religioso, das artes e marido muito apaixonado.

Com ele aprendi que:

  • É possível escrever a mesma história durante mais de 50 anos

  • Que as pessoas reais que nos rodeiam são as melhores das personagens

  • Que as palavras que alguns tencionam como insulto, a nós, podem até orgulhar-nos

Bem-vindo a mais um episódio!


Nascido no sul do estado da Baía, numa fazenda de cacau, Jorge Amado transportou as suas origens para a escrita, fazendo da terra da sua infância o cenário de histórias belas e tornando as suas gentes em personagens inesquecíveis que espelham o povo brasileiro.

Quando decidi dedicar um episódio aqui no podcast a Jorge Amado, procurei naturalmente saber um pouco mais sobre a vida daquele que é um dos meus escritores favoritos de sempre e fiquei a saber que: foi um político muito ativo, eleito deputado federal pelo estado de S. Paulo, um conhecido militante comunista, e que esteve exilado durante vários anos devido à ditadura…

E, incrível, foi autor da lei que assegura a liberdade religiosa no Brasil, e que vigora até hoje.

Existe um biografia recente, escrita por Joselia Aguiar (caso sofras da mesma paixão que eu e queiras saber mais detalhes sobre a vida deste escritor incrível)

A obra de Jorge Amado pode de certa forma ser dividida em duas fases:

Uma primeira na década de 30 e 40, em que se nota uma denúncia política e a luta de classes, instigada pelo seu comunismo fervoroso, que ele foi de alguma forma retemperado ao longo dos anos e afastando-se a pouco e pouco.

Foi nesta época que publicou Jubiabá, Mar Morto e o comovente Capitães da Areia, o mais popular de todos os seus livros. Onde diz:

“Porque a revolução é uma pátria e uma família.”

A segunda fase da obra de Jorge Amado inicia-se com a publicação de Gabriela, Cravo e Canela. Com uma escrita mais livre e romanceada. Ora oiçam:

“ O amor não se prova, nem se mede. É como Gabriela. Existe, isso basta.”

Num estilo doce e sensual, que a grande maioria de nós conhece, com tantas adaptações a telenovelas, séries, filmes, peças de teatro… esta segunda fase da sua obra inclui títulos como D. Flor e os seus dois maridos, Teresa Batista Cansada de Guerra, Tieta do Agreste, Tocaia Grande… são tantos, tantos!

Qual o meu favorito? Como escolher?

Sei que Mar Morto e Capitães da Areia têm um lugar especial no meu coração, mas é impossível deixar de lado tantos outros…. com tantas destas histórias escritas num tom encantador, quase hipnótico, cheias de humor, sensualidade, drama… a retratar tão bem todo um povo, em toda a sua diversidade cultural, religiosa e racial.

Dizer que é o escritor brasileiro mais vendido do mundo, traduzido em cerca de 50 idiomas, mostra o enorme sucesso que a sua obra alcançou, mas, mais do que um sucesso comercial, Jorge Amado espalhou a cultura brasileira pelo mundo. Há até quem diga que ele “criou” o imaginário da Baía, que para Jorge Amado a Baía era o Brasil.

No mundo literário, no de então (o Brasil de Jorge Amado), assim como no nosso (Portugal na atualidade), há um mito, uma espécie de crença generalizada de que livros populares, que têm muitos leitores e que são lidos, não têm qualidade.

Ora, Jorge Amado, autor brasileiro mais mais popular do mundo, com a frontalidade que lhe era característica disse que esta ideia é “uma mentira descarada”. Se um livro é lido por muitos, tem de ser um bom livro.

Justamente pelo seu sucesso junto do grande público, ele foi alvo de enormes críticas, não muito simpáticas por parte da elite literária, devido a esta mesma popularidade.

Um crítico chegou a dizer:

“Jorge Amado não passa de um escritor de putas e vagabundos”

A resposta, nas palavras do próprio Jorge Amado, foi: “Nunca ninguém me fez um elogio maior. Sou um romancista de putas e vagabundos. Com muita honra.”

Na época da publicação dos seus maiores êxitos, o erotismo era muito apontado como motivo para ler... ou não-ler... os seus livros. Se uma jovem adolescente fosse vista a ler Jorge Amado com certeza seria chamada à atenção.

Jorge Amado ama as mulheres, é tido como um homem sedutor, mas é Zélia Gattai o grande amor da sua vida, quem o ajuda nos seus livros, com quem partilhou mais de 50 anos de vida em comum, e a quem ele incentiva a escrever a sua própria criação literária, num orgulho enorme por vê-la criar obra.

Como membro da academia brasileira de letras, ele fez parte de um grupo restrito que lutou pelo acesso das mulheres a esta instituição, que nos primeiros 80 anos de existência as impossibilitava de ser aceites como membros pelo simples facto de serem mulheres.

Zélia Gattai, a sua esposa, a quem tantas vezes perguntavam se tinha ciúmes das mulheres icónicas como Gabriela, Tieta, D. Flor, Teresa Batista… entre muitas outras criadas pelo marido nas suas histórias, ela responde: “E não era para ter?” continuando depois, dizendo “em todas as mulheres de Jorge Amado encontro sempre um pouquinho de mim”


Religião e raça é outro dos pontos muito esmiuçados na sua obra.

Mas como esquecer que ele incluiu a liberdade religiosa na constituição brasileira?

E, quando provocado sobre a sua abordagem ao racismo, costumava dizer com humor: Branco puro na Baia, quem? Preto puro na Baía, onde? Somos todos mulatos com a graça de Deus.”

Autor de histórias encantadoras, de uma escrita poética e musical.

Jorge Amado confessa em entrevista :

“Não sei se é um privilégio, mas escrevo o mesmo romance há mais de 50 anos, romance da gente baiana, do campo, da região do cacau, do sertão, e sobretudo da cidade da Baía… os ambientes e os temas fundamentais são os mesmos… não sei se é um privilégio ou uma limitação”

Nos anos mais produtivos da sua escrita, levantava-se cedo, muito cedo, perto das 5 da manhã, período do dia em que escrevia, e à tarde, editava.

Parte do seu hábito era também ler em voz alta para pessoas que acompanhavam a sua escrita.

Começava a escrever um novo livro e qualquer sítio era um bom lugar para escrever, até que, a história crescia e a certo ponto recolhia-se para uma solidão poderia ser num pequeno escritório no jardim, numa outra cidade, país ou continente mas fosse onde fosse o refúgio, sempre, com a sua Zélia.

Roubava sem pudor, características daqueles que o rodeavam para compor as suas personagens.

Disse: “As pessoas encontram-se muito facilmente nos meus livros… Gabriela, Teresa Batista, Tieta, D. Flor, porque nenhum destes personagens foi inventado por mim, é gente que eu conheci.”

Auta Rosa, uma amiga, num programa da TV Brasil cita um outro amigo que dizia:

“Quando o Jorge contrai uma amizade é como se fosse uma gripe, ele passa imediatamente para todo o mundo.”

E todo o mundo, eu, agradeço o privilégio de poder viver os universos de Jorge Amado, a sua Baía, conhecer as suas mulheres fortes e sensuais, os homens honrados, os malandros, os coronéis, as crianças… viver as suas gargalhadas e sofrimentos, senti-los como meus porque ler livros maravilhosos é tudo isto e ainda muito mais.

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