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Diz-me o que lês, dir-te-ei quem és

  • Writer: Maria ISAAC
    Maria ISAAC
  • Apr 26
  • 4 min read


COMO CHEGAMOS AOS LIVROS QUE LEMOS


Quando foi a última vez que escolheste um livro completamente sozinho? Sem que ninguém te tivesse falado nele. Sem o teres visto no Instagram, num artigo de jornal, em destaque numa montra de livraria. Sem o algoritmo te ter sugerido. Penso nisto às vezes. A ideia de que as nossas escolhas de leitura são verdadeiramente nossas é, em grande parte, uma ilusão bonita.

Os primeiros livros chegaram pelas mãos de professores que nos obrigaram a lê-los, de pais que os deixavam por toda a casa, de amigos que nos emprestaram um exemplar na adolescência (e provavelmente nunca o receberam de volta). O tempo passou, os tempos mudaram, as influências também. Hoje eles têm denominação, influencers, têm perfil de Tiktok, de Instagram, ou de um qualquer prémio literário venerado que transforma um livro esquecido em best-seller instantâneo. Lembram-se do que aconteceu há poucos meses com “O Monte dos Vendavais”? Bastou uma adaptação cinematográfica polémica chegar aos cinemas e de repente esgotou-se um clássico com mais de 170 anos.

Sim, todos fazemos as nossas escolhas dentro de um campo de possibilidades que outros definiram. E isso não é necessariamente mau. A recomendação de livros é uma das formas mais antigas de amor literário. O problema começa quando deixamos de escolher por nós e passamos a escolher para os outros. Se o livro que pegamos não é o que queremos ler, é o que precisamos de ter lido.


O PRECONCEITO QUE NÃO ADMITIMOS

Diz-me que tipo de livros lês e eu dir-te-ei, provavelmente, o que pensas de ti mesmo enquanto leitor.

Existe um preconceito muito instalado no mundo literário (e incluo-me, porque ninguém fica de fora desta) que separa a leitura em duas categorias: a leitura séria e a leitura pelo prazer. Como se fossem incompatíveis. Somos rápidos a julgar o leitor pela capa do livro que segura nas mãos, pela fotografia da sua estante ou as opiniões que partilha. Há autênticos bate-boca nas redes sociais entre influencers literários, divisões feudais por estilos e géneros. A verdade é que essa divisão diz mais sobre as nossas inseguranças do que sobre a qualidade dos livros. Um livro que nos faz companhia numa tarde de domingo não é menor do que um que nos muda a visão do mundo. São diferentes, sem dúvida, e por isso mesmo ambos merecem o nosso tempo. O snobismo literário é, no fundo, uma forma de medo. O medo de não sermos suficientemente inteligentes, cultos, o tipo de leitor suficientemente sério. E esse medo leva-nos a um lugar estranho: a ler para parecer, em vez de ler para sentir.


PORQUE MENTIMOS SOBRE LIVROS 

Um número: 62%. Esta é a percentagem de pessoas que admite ter mentido sobre ter lido um livro clássico, segundo indica um estudo britânico realizado com uma amostra de dois mil leitores. E é provável que o número real seja mais alto, porque este é o tipo de pergunta à qual também se mente. Os títulos mais populares da lista? O 1984 do Orwell. Guerra e Paz do Tolstói. Alice no País das Maravilhas… esta que muito me surpreendeu, porque achava que era menos assustador de admitir.

Todos eles são livros que funcionam como critérios de acesso: se dissermos que os lemos, pertencemos ao grupo. Entre esse grupo de pessoas que no estudo britânico admitiram ter mentido, 42% confessaram ter recorrido a adaptações cinematográfica ou resumos online para fingir conhecer os livros. Viram o filme e foram lá foram eles à conversa! O que, convenhamos, é uma arte em si mesma.

Porque fazemos isto? A resposta simples é: para parecer mais inteligentes. A resposta honesta: porque há um conforto imenso em pertencer ao grupo. Uma comunidade é uma casa que todos queremos e ansiamos encontrar. O problema é quando a casa nos aperta, desfigura, e a necessidade de pertencer nos impede de sermos quem somos.


"Se apenas leres os livros que toda a gente lê, apenas podes pensar o mesmo que os outros estão a pensar." — Haruki Murakami


Esta frase é um convite à curiosidade fora de portas, a ir na descoberta do que ainda ninguém recomendou, daqueles livros que talvez nunca venham a estar na moda. 


A MINHA BIBLIOTECA É O MEU DIÁRIO MAIS ANTIGO

Ao olhar para as minhas prateleiras, vejo escrito em lombadas a cronologia dos meus interesses. Há livros que hoje me envergonham um pouco mencionar (quem não teve um “Crepúsculo” na sua vida?). Não os classifico como maus livros, eles simplesmente pertencem a uma versão de mim que já não existe, esses livros que em tempos me encantaram e que hoje deixaram de fazer sentido. Muitos desapareceram com o tempo, ainda assim os mais especiais continuam lá, porque de certa forma também permanecem comigo.

A tua estante não precisa de impressionar ninguém. Não existem os livros certos. Precisas dos teus livros, os que te fizeram chorar às escondidas, te ensinaram algo para o qual ainda não tinhas palavras, e até os que não chegaste a terminar e guardas mesmo assim, porque um dia, quem sabe? 

Diz-me o que lês. Mas diz-me de verdade. Não o que achas que devo ouvir. É nesses livros que estás tu.

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