Quando os geniais perdem a compostura
- Maria ISAAC
- Jun 29
- 6 min read
Porque o génio não garante o decoro, convém falar de uma das coisas mais cómicas da vida literária: as birras dos grandes escritores.
Já alguma vez te perguntaste o que acontece quando dois génios se cruzam e nenhum deles consegue ser generoso?
Há uma ideia muito benévola que tendemos a ter dos grandes escritores: a de que quem trabalha com a linguagem ao mais alto nível deve ser, por consequência, uma pessoa de grande fineza de espírito. Alguém que compreende a condição humana em toda a sua complexidade, que tem empatia, que sabe ver o outro.
Pois, não é bem assim.
O que a história da literatura nos mostra é que alguns dos maiores escritores de todos os tempos foram também algumas das pessoas mais petulantes, mais ciumentas e implacáveis na forma como falavam dos seus contemporâneos (sem esquecer os antecessores). Os registos que nos deixaram dessas opiniões são, hoje, uma das leituras mais deliciosas que existem.
Vale a pena mergulhar neste mundo socialmente incorreto do mexerico literário, porque até no mal dizer os nossos escritores favoritos sabem como o fazer com maior substância.
O campeão absoluto
O campeão absoluto desta categoria (há sempre um campeão) foi, sem margem para dúvidas, Vladimir Nabokov.
Nabokov era prolífico na crítica aos seus pares e frequentemente hilariante nas suas observações.
Sobre Dostoiévski, autor gigante da literatura russa e mundial, disse que era “um jornalista sensacionalista e um comediante desleixado”. Sobre Hemingway confessou: “li-o pela primeira vez nos anos quarenta, qualquer coisa sobre sinos, testículos e touros… detestei”. Sobre Faulkner, Camus, Brecht e Ezra Pound juntos (quando se é Nabokov ataca-se em grupo) declarou que os seus nomes estavam “gravados em túmulos vazios” e que eram “completas nulidades no que diz respeito ao meu gosto literário”.
E sobre Henry James, que é tido como um dos mais refinados estilistas da língua inglesa, Nabokov disse que era “uma farsa completa” e falou das suas “vulgaridades de pelúcia”.
O que é interessante em Nabokov é a precisão. Ele não insultava por insultar, era defensor de uma estética bem definida, intransigente até, e qualquer coisa que não se encaixasse nela era simplesmente inaceitável. O que tornou os insultos quase principescos.
Em Portugal também somos muito bons nisto
Pensar que isto é coisa de estrangeiros, de temperamentos anglosaxónicos ou russos exaltados é equivocado.
Comecemos em 1865, com a Questão Coimbrã. António Feliciano de Castilho, o grande patriarca do romantismo português e figura respeitadíssima, decide atacar publicamente os jovens Antero de Quental e Teófilo Braga, acusando-os de arrogância literária. Antero responde com o panfleto Bom-Senso e Bom-Gosto. E o que se seguiu foram quarenta panfletos publicados em seis meses, numa das maiores guerras literárias da nossa história.
A parte irónica desta zanga épica é que foi dela que nasceu a Geração de 70, composta pelos escritores Eça de Queirós, Antero e Ramalho Ortigão. A polémica não só não destruiu a literatura portuguesa como pelo contrário, serviu de pilar fundador.
Cinquenta anos depois, em 1916, um jovem escritor de vinte e três anos chamado José de Almada Negreiros decidiu que estava na hora de uma mudança. Almada fazia parte do grupo do Orpheu, a revista que trouxe o modernismo a Portugal, e na qual publicaram Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. O alvo favorito no que respeitava à elite literária instalada à época era Júlio Dantas: famoso poeta, dramaturgo, romancista, cronista, jornalista, historiador, médico, deputado, embaixador, senador e ministro. Era a elite literária em pessoa, literalmente.
Dantas tinha escrito uma crónica chamada “Poetas Paranóicos” onde comparava os autores do Orpheu a doentes mentais. Almada não se ficou, foi ao teatro vaiar em pleno palco a peça de Dantas, intitulada Sóror Mariana, e logo a seguir escreveu o Manifesto Anti-Dantas e por extenso, um panfleto que talvez ainda tenhas memória de o ter estudar na escola e que para mim se tornou numa das minhas aulas de português favoritas, sem dúvida a mais inesquecível.
Frase memorável:
“Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi! É um coio d’Indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos e só pode parir abaixo do zero!”
E o manifesto continua, em letras maiúsculas, com uma lista de acusações que vão muito além da literatura:
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS A CAVALO É UM BURRO IMPOTENTE! O DANTAS VESTE-SE MAL! O DANTAS USA CEROULAS DE MALHA! O DANTAS NÚ É HORROROSO! O DANTAS CHEIRA MAL DA BOCA! SE O DANTAS É PORTUGUEZ EU QUERO SER HESPANHOL!
É absolutamente injustificável como crítica literária. E é, igualmente, absolutamente delicioso.
Mais de um século depois, chegamos ao Fla-Flu literário de Portugal: Saramago e Lobo Antunes. Dois dos maiores escritores portugueses do século XX com estilos radicalmente opostos: a prosa oral, sem pontuação convencional de Saramago; a escrita densa, fragmentada, labiríntica de Lobo Antunes. E uma antipatia que nunca foi completamente assumida por nenhum dos dois, mas que foi sendo alimentada com uma consistência admirável.
Em 1998, o jornal Tal & Qual ofereceu a Saramago, como prenda de Natal, um livro de Lobo Antunes. Saramago recusou a oferta com o seguinte comentário: “Tome, não aceito e considero isto uma provocação.” O Nobel foi atribuído a Saramago nesse mesmo ano, o que não terá ajudado a suavizar o ambiente.
A resposta de Lobo Antunes veio numa entrevista ao Diário de Notícias, cujo título ficou para a história, e cito: “Quero que o Nobel se f*da”. Disse sobre Saramago: “Saramago é uma merda… Se me quiserem comparar com alguém ponham lá o Antero, o Herculano, ponham assim um escritor.” E sobre o Brasil, onde Saramago era muito lido, acrescentou com a condescendência de quem oferece um presente: “Eu sou um homem generoso. Resolvi deixar o Brasil para Saramago, coitado, e ficar com o resto do mundo.”
Diz-se por aí que os dois génios nunca se encontraram, nem resolveram os seus arrufos. Os seus livros, esses, continuam nas estantes, lado a lado, espalhados pelo mundo.
Os duelos mais célebres
O duelo mais famoso da história literária envolveu dois outros nomes: Hemingway e Faulkner. Dois Nobel, escritores gigantes, ainda assim incapazes de dar um ao outro sequer um elogio.
Faulkner atacou primeiro, com a elegância sulista de quem envenena o chá:
“Nunca se soube que usasse uma palavra que pudesse obrigar o leitor a consultar um dicionário.”
Era uma acusação de superficialidade, apontando o dedo a Hemingway por escrever para as massas, com frases simples, sem a riqueza vocabular que Faulkner considerava indispensável à literatura.
A resposta de Hemingway foi digna de uma personagem de Hemingway:
“Pobre Faulkner. Acredita mesmo que as grandes emoções vêm das grandes palavras?”
Os dois numa zanga sem resolução ainda hoje, a grande discussão sobre o que deve ser a prosa literária.
Houve ainda Mark Twain e a sua antipatia declarada por Jane Austen.
Disse numa carta:
“Cada vez que leio Orgulho e Preconceito, apetece-me desenterrá-la e bater-lhe na cabeça com o próprio osso da perna.”
O que é incrível nesta frase (para além do absurdo da imagem) é o “cada vez que leio”. Mark Twain releu Jane Austen o suficiente para atingir o nível da fúria. Isto revela uma obsessão disfarçada de desprezo.
E depois Virginia Woolf sobre James Joyce, num tempo em que ambos estavam no processo de inventar o romance moderno e a seguir violentamente em direcções opostas, mas com a mesma urgência. Virginia Woolf escreveu sobre o Ulisses:
“A obra de um estudante universitário enjoativo a coçar as borbulhas.”
Brutal. Impiedoso. Injusto. Ainda assim uma das críticas mais memoráveis alguma vez escritas sobre um livro que hoje é considerado um dos maiores da língua inglesa.
O que fica
Mas há algo mais interessante do que os insultos em si: o que revelam sobre quem os faz.
Mark Twain relia Jane Austen repetidamente. Virginia Woolf e James Joyce estavam a disputar o mesmo território, tentando libertar o romance do realismo convencional, cada um à sua maneira. E Nabokov atacava sempre rivais com peso suficiente para merecerem a sua atenção furiosa, nunca se dando ao trabalho de insultar quem não importa.
A birra é muitas vezes o verso do fascínio.
O que é certo é que a grandeza literária não protege ninguém da pequenez humana, e que essa pequenez (quando expressa com a mestria de um Nabokov ou de um Twain), se transforma paradoxalmente em algo que, por si só, vale a pena ler.
No fim de tudo, o que fica?
Ficam os livros de todos eles. Lolita e as obras completas de Dostoiévski, Ulisses e Mrs Dalloway, Orgulho e Preconceito, as histórias de Hemingway. O Ensaio Sobre a Cegueira, o Memória de Elefante.
As zangas envelheceram e os insultos tornaram-se velhas anedotas para rirmos. Os livros ficaram, para serem lidos por pessoas de coração aberto.
Nós, que somos os leitores, temos a sorte de poder ficar com tudo.



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